« Voltar

"Eu me sinto vocacionada, me encontrei neste lugar"

A médica Eliana Silva é servidora do DEGASE há 22 anos

“Nossa meta é morte zero entre adolescentes e servidores. Havia uma previsão de que aconteceriam mortes no sistema penal e no sistema socioeducativo por causa da Covid-19. Foi um desafio para nós, da equipe de saúde do DEGASE, impedir que isso se tornasse realidade. E estamos completando cinco meses sem óbitos”, comemora a médica Eliana Silva, servidora do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (DEGASE) há 22 anos.

Hipertensa, diabética e com mais de 60 anos, Eliana Silva tinha o direito legal de ficar em casa, mas optou por assumir a linha de frente no combate à pandemia dentro do Departamento ao lado da Coordenadora de Saúde Integral e Reinserção Social, Christiane Zeitoune. Moradora de Jacarepaguá, ela não sabe dirigir e utiliza o transporte público ou por aplicativo para ir a Belford Roxo ou à Ilha.

Em meio à elaboração de protocolos para combate ao novo coronavírus – como quarentena de jovens que chegavam às dez unidades de internação, e afastamento, tratamento e acompanhamento de servidores que apresentassem síndrome gripal-, a doutora Eliana perdeu a mãe, com 105 anos, que não suportou a morte de um filho com suspeita de Covid-19. Os falecimentos foram em maio, com uma semana de diferença, mas não a fizeram parar.

“Era uma questão de ajuda humanitária. No meio dessa crise, não há como ficar vendo as coisas da janela. Articulamos nosso atendimento junto às secretarias municipais de saúde e à Secretaria de Estado de Saúde. Os adolescentes com suspeita são encaminhados para atendimento nos postos de saúde municipais e, os servidores, acompanhados pelo Núcleo de Saúde do Trabalhador (NUPST)”, recordou ela.

O Ministério Público acompanha o trabalho realizado pela equipe integrada pela médica. “Os integrantes do MP queriam saber o que estávamos fazendo nas unidades da Ilha. Criamos um Centro de Referência da Covid, um plano de enfrentamento junto ao Estado, com testagem da doença e o NUPST orienta os servidores que estão no grupo de risco, já afastados, e também os sintomáticos”, enumerou doutora Eliana.

Formada pela Faculdade de Medicina de Valença, a doutora Eliana Silva se especializou em psiquiatria. No DEGASE, começou trabalhando no Centro de Atendimento Intensivo Belford Roxo, também conhecido como CAI Baixada. E ainda continua dividindo seu tempo entre os plantões em Belford Roxo e as unidades da Ilha do Governador.

Quinta filha entre seis irmãos, com um deles deficiente (o que faleceu agora durante a pandemia) e uma irmã muito doente, a jovem Eliana prestou o vestibular para a Faculdade de Valença e conquistou uma bolsa integral por causa de suas notas. Foi acolhida pelas famílias de seus colegas de faculdade: assim pôde morar na cidade e se alimentar. Ao final do curso, orgulhou a mãe e os irmãos ao se tornar a primeira integrante da família com um diploma de nível superior.

O pai, funcionário público de nível elementar, morreu quando a médica tinha 12 anos e a mãe criou os filhos com a pensão que recebia como viúva. “Eu me sinto vocacionada, me encontrei neste lugar, onde temos lidamos com adolescentes que, em sua maioria, têm doenças que podem ser tratadas dentro da atenção básica à saúde”, concluiu Eliana Silva, orgulhosa de integrar o primeiro departamento do Brasil que elaborou um programa para acabar com o consumo de cigarros nas unidades.

Texto e foto: DEGASE